Chengdu vende-se pelos pandas, mas quem se lembra da cidade é quem passou uma noite à mesa. A capital de Sichuan é, provavelmente, o melhor lugar da China para comer: a cozinha local vai muito além do picante, e a pimenta de Sichuan — a que entorpece a boca sem queimar — é uma experiência que não se repete em nenhum outro sítio. Este guia trata das duas coisas, dos pandas e da mesa, e da melhor forma de as encaixar no mesmo dia.
Antes de mais, um aviso prático: os pandas só estão activos de manhã. Ao meio-dia dormem, e uma visita à tarde rende uma fila de animais adormecidos. Se quer ver comportamento — a comer, a trepar, a brincar —, o plano começa antes das oito da manhã.
A base dos pandas: porque é que a hora importa
A base de reprodução de pandas de Chengdu abre logo pela manhã e é melhor chegar na primeira meia hora, quando os animais recebem o bambu fresco e estão mais activos. À medida que a temperatura sobe, os pandas recolhem e passam a maior parte do dia a dormir, o que é natural num animal que digere durante muitas horas. Não é uma questão de sorte: é de horário.
A base tem vários recintos, um centro de investigação e, na primavera, crias recém-nascidas nas incubadoras. Há também uma área mais afastada e mais tranquila, longe do percurso dos autocarros turísticos, onde se caminha quase sozinho entre os recintos. Se o seu guia conhecer a base, leva-o primeiro aos recintos mais concorridos e deixa os tranquilos para depois.
- Chegue antes da abertura e siga primeiro os recintos do percurso inicial.
- Vá de abril a junho se quiser ver crias pequenas nas incubadoras.
- Leve água e calçado cómodo: a base é grande e faz-se a pé.
- Evite o meio-dia, quando os pandas dormem e a fila é maior.
- Respeite as regras de silêncio e não use flash nas áreas interiores.
Wolong e Dujiangyan: as alternativas à base da cidade
Se quer mais do que a base urbana, há duas opções a algumas horas de Chengdu. O centro de Dujiangyan é mais pequeno e menos concorrido, e combina bem com uma visita ao sistema de irrigação milenar da cidade, património da UNESCO. O de Wolong é maior e fica em plena montanha, com paisagem de floresta e panda em ambiente mais naturalista, mas exige um dia inteiro.
A escolha depende do tempo. Se só tem um dia para pandas, fique pela base da cidade e reserve a tarde para Chengdu. Se tem dois dias e gosta de montanha, uma excursão a Wolong ou Dujiangyan rende muito mais do que repetir a base urbana.
Como comer picante sem sofrer
A primeira coisa a perceber é que a pimenta de Sichuan, a chamada mala, não queima como a malagueta: entorpece. É uma sensação eléctrica nos lábios que surpreende na primeira garfada e se torna viciante na terceira. O erro de quem não está habituado é pedir «sem picante» em vez de pedir «menos picante»: o prato perde a alma. O correcto é pedir «um pouco menos de mala», e o cozinheiro entende.
A segunda coisa é saber que Sichuan tem pratos suaves e excelentes, além dos picantes. O tofu de Chen Mapo, que dá nome a um restaurante clássico da cidade, é uma referência, e há também o frango do general Tso, o peixe cozido em caldo de mala, os noodles de Dandan e o famoso hotpot, onde se mergulham ingredientes num caldo a ferver à mesa.
A mesa de Chengdu: o que pedir e onde
Chengdu é uma cidade de tascas e de restaurantes de bairro, e a melhor comida quase nunca está nos sítios com carta em inglês. Peça o que os locais pedem: tofu de Chen Mapo, peixe de Sichuan, frango em cubos com amendoim e malagueta, e noodles frios com molho de sésamo para equilibrar. Para o hotpot, escolha o caldo dividido, com um lado suave, se viaja com crianças ou com quem não aguenta mala.
Ao meio-dia, a cidade come em tascas de noodles por preços baixos; à noite, as ruas de comida enchem-se de bancas e espetadas. Uma refeição de bairro anda aproximadamente entre 30 e 80 CNY por pessoa, e um hotpot para dois pode ir dos 120 aos 250 CNY, conforme o que se pede, sempre conforme as tarifas locais publicadas.
A cidade para além dos pandas
Chengdu é uma cidade lenta, e isso faz parte do encanto. O parque do Povo, no centro, enche-se de gente a beber chá em cadeiras de bambu e a deixar que lhes limpem as orelhas com uma técnica tradicional, num ritual que se vê há décadas. É o melhor lugar para perceber o ritmo da cidade antes de partir para o resto de Sichuan.
Há também os bairros antigos recuperados, como o de Kuanzhai, com casas de chá e pátios, e o templo de Wenshu, com um mercado vegetariano às portas. Se lhe sobrar um dia, a região de Leshan, com o enorme Buda esculpido na falésia, e o monte Emei, um dos grandes montes sagrados da China, fazem-se como excursão.
Sichuan para além de Chengdu: quando prolongar
Muita gente usa Chengdu só como base dos pandas e segue caminho, mas ia Sichuan tem muito mais. O Buda gigante de Leshan, com mais de setenta metros de altura, é uma das maiores esculturas de pedra do mundo e faz-se num dia. O monte Emei, com mosteiros suspensos na névoa e macacos atrevidos, exige uma noite no cume para ver o nascer do sol sobre o mar de nuvens.
Mais longe, e para quem tem tempo, está o Jiuzhaigou, um vale de lagos turquesa e cascatas que é, para muitos, a paisagem mais bonita do país. Fica a um voo curto ou a um dia de estrada, e combina bem com uma extensão de vários dias depois de Chengdu.
Como chegar e como se mover
Chengdu tem um grande aeroporto internacional e ligações de alta velocidade a Xi'an, Chongqing e ao resto do país, pelo que é uma base natural para começar ou terminar um circuito de Sichuan. Dentro da cidade, o metro é limpo e barato, e os táxis e as aplicações de transporte funcionam bem. Para os pandas e para Leshan, um carro privado com motorista poupa-lhe o planeamento das ligações.
Na ChinaTour.es, o site em português do grupo JoyoTour, a visita a Chengdu costuma montar-se à volta da manhã dos pandas e de dois jantares escolhidos a dedo, com guia em português que sabe onde pedir a versão mais suave do mala e onde provar a autêntica. É a diferença entre comer bem e comer inesquecivelmente bem.
Erros que se pagam caros
- Ir à base dos pandas à tarde, quando estão a dormir.
- Pedir «sem picante» e ficar com um prato sem carácter.
- Comer só em restaurantes com carta em inglês e perder a cozinha local.
- Tratar Chengdu como escala de uma noite e não reservar tempo para a mesa.
- Comprar bilhete de Leshan sem reservar e perder meio dia em filas.
Chengdu não se visita com pressa: come-se devagar, bebe-se chá e deixa-se o dia passar. Quem tem pressa perde exactamente aquilo que veio procurar.
— Um consultor de viagens em Sichuan
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