A antiga Concessão Francesa de Xangai não é um bairro de monumentos: é um quarteirão de plátanos, vivendas dos anos 1920 e 1930 e ruas onde a cidade ainda se pode percorrer a pé. Este roteiro leva-o da Wukang Road e do edifício Normandie até Tianzifang, passando pela Anfu Road, pela Wuyuan Road, pelo mercado da Wulumuqi Road, pela Hengshan Road, pelo Parque Fuxing e pelos Sinan Mansions. São cerca de oito a nove quilómetros, que se fazem num dia com paragens para café ou em dois meios-dias, se preferir andar sem pressa.
O percurso está dividido em quatro troços, cada um com duração aproximada, estação de metro mais próxima e sentido de marcha. Pode segui-lo pela ordem indicada ou fazer apenas um troço e voltar no dia seguinte. Todos os pontos estão a menos de vinte minutos de caminhada uns dos outros, e há metro em quase todas as pontas.
O que foi a antiga Concessão Francesa
Entre 1849 e 1943, uma larga faixa a oeste do centro histórico de Xangai esteve sob administração francesa, com leis, impostos e polícia próprios. Ali se instalaram consulados, bancos, igrejas e uma burguesia de comerciantes que mandou construir casas ao gosto europeu, com jardins e fachadas de tijolo. O resultado é a maior concentração de arquitetura residencial dos anos 1920 e 1930 que sobreviveu na cidade.
O que hoje se visita não é um museu, mas um bairro habitado. As vivendas continuam a ser casas de família, os prédios continuam a ter moradores, e é isso que dá ao passeio o seu interesse. Convém caminhar devagar, com respeito por quem ali vive, e não esperar portões abertos: a maior parte das casas vê-se de fora, e é o conjunto que conta, mais do que cada edifício isolado.
Antes de sair: metro, horário e o que levar
Comece à hora certa. Entre as oito e as dez da manhã as ruas estão calmas, os cafés abrem e a luz bate de lado nos plátanos. A partir do meio-dia, sobretudo ao fim de semana, a fila para uma mesa de brunch pode custar meia hora. A melhor época é a primavera e o outono; no verão, conte com calor húmido e trovoadas ao fim da tarde. Se quiser um guia que explique a arquitetura e o contexto histórico em português, a ChinaTour.es trabalha com guias licenciados nesta zona e constrói o passeio em torno do seu ritmo.
| Troço | Duração | Metro mais próximo | Sentido |
|---|---|---|---|
| 1. Edifício Normandie e Wukang Road | 60 a 75 minutos | Linha 10, estação Biblioteca de Xangai, saída 1 | De Huaihai Middle Road para sul, ao longo da Wukang Road |
| 2. Anfu Road, Wuyuan Road e Fuxing West Road | 40 a 50 minutos | Linha 10, estação Biblioteca de Xangai | De oeste para leste, entre a Wukang Road e a Wulumuqi Road |
| 3. Mercado da Wulumuqi Road e Hengshan Road | 45 a 60 minutos | Linha 1, estação Hengshan Road, saída 4 | Para norte até à Anfu Road e desvio a oeste até à Hengshan Road |
| 4. Parque Fuxing, Sinan Mansions e Tianzifang | 60 a 75 minutos | Linha 13, estação Middle Huaihai Road; Linha 9, estação Dapuqiao | De oeste para leste, até à Taikang Road |
- Calçado cómodo: são oito a nove quilómetros de calçada e passeio de pedra irregular.
- Água e um chapéu de sol entre maio e setembro.
- Um bilhete de metro à mão, ou o código QR de Alipay e WeChat Pay, para os troços mais longos.
- Notas de dez e vinte yuans para o mercado e para as casas de comida que só aceitam numerário.
Primeiro troço: Wukang Road e o edifício Normandie
Saia da estação Biblioteca de Xangai, na Linha 10, e caminhe dez minutos até ao cruzamento da Wukang Road com a Huaihai Middle Road. Ali está o edifício Normandie, uma construção em forma de ferro de engomar, com a proa virada para o encontro das duas avenidas. Foi projetado pelo arquiteto húngaro László Hudec e concluído em 1924, e é o símbolo do bairro: ao amanhecer, a fachada de tijolo fica dourada e as árvores fazem-lhe sombra em diagonal.
Daí, desça a Wukang Road para sul. É uma rua estreita, com plátanos dos dois lados, vivendas com jardim e muros de tijolo que escondem pátios. Ao número 113 está a antiga residência de Ba Jin, o escritor que ali viveu décadas e escreveu parte da sua obra mais conhecida. A casa abre ao público em horário limitado e fecha habitualmente às segundas-feiras, pelo que convém confirmar antes de contar com a visita. Mesmo que esteja fechada, a rua justifica o desvio.
Ao chegar à Anfu Road, encontra o primeiro bom momento para parar. Os guias da JoyoTour costumam fazer esta paragem de propósito: a meio do troço, com metade do caminho feito e os cafés ainda pouco cheios, é o ponto certo para um café e para explicar a diferença entre as vivendas de estilo colonial e os prédios de apartamentos que se erguem nas esquinas. Sem essa explicação, a rua lê-se como um conjunto bonito; com ela, lê-se como uma cidade a mudar.
Segundo troço: Anfu Road, Wuyuan Road e Fuxing West Road
Vire à esquerda na Anfu Road, para leste, e siga em direção à Wulumuqi Road. A Anfu Road é a rua das lojas pequenas: teatro, livraria, casa de chá, loja de cerâmica, padaria de fermentação lenta. É também a rua mais movimentada do percurso ao fim de semana, com fila à porta dos sítios que se tornaram conhecidos. Se quiser fugir à multidão, faça esta rua num dia útil ou antes das onze da manhã.
Na Wuyuan Road, uma rua paralela mais a sul, o tom muda por completo. É mais estreita, mais silenciosa e mais residencial, com uma dúzia de cafés de qualidade espalhados em poucos metros e praticamente nenhum autocarro de turismo. A Fuxing West Road, mais a sul ainda, é uma avenida larga debaixo de plátanos enormes, onde vale a pena caminhar devagar só pelo que se vê: portões de ferro, muros com hera e árvores com mais de meio século.
Terceiro troço: mercado da Wulumuqi Road e Hengshan Road
O mercado da Wulumuqi Road é o ponto onde o passeio deixa de ser só arquitetura e passa a ser vida de bairro. Nas bancas há fruta, tofu, espetadas, pastelaria chinesa e peixe, e há bancas de comida pronta onde se come de pé, por dez ou vinte yuans. É um mercado real, não uma atração preparada para visitantes, e é isso que o torna interessante. Vá ao fim da manhã, quando a oferta está completa e o movimento ainda não é o do meio-dia.
Da Wulumuqi Road, siga para sul e depois a oeste pela Fuxing West Road até à Hengshan Road. Esta é a parte mais arborizada da zona, com a estação de metro da Linha 1 à mão, caso queira encurtar o dia. A Hengshan Road tem uma fila de edifícios dos anos 1930, hoje ocupados por bares e restaurantes, e é o melhor lugar do percurso para uma pausa mais longa. Ao fim da tarde, as luzes acendem-se cedo e a avenida ganha outro ambiente.
Quarto troço: Parque Fuxing, Sinan Mansions e Tianzifang
O Parque Fuxing, antigo Parque Francês, é o pulmão da zona: fontes, roseirais, um parque infantil e, de manhã, grupos de reformados a dançar e a cantar ópera. É gratuito e vale a entrada só pela cena social. Daí, caminhe até aos Sinan Mansions, um conjunto de vivendas restauradas na Sinan Road, hoje ocupado por restaurantes e galerias, com uma pequena praça onde se vê bem a arquitetura de tijolo e de varanda.
A partir dos Sinan Mansions, tem duas saídas. Se quiser terminar com calma, siga para norte até à Huaihai Middle Road e ao Xintiandi, a zona de arquitetura shikumen restaurada, com restaurantes e lojas, a dez minutos a pé. Se preferir acabar num sítio mais popular, siga para sudeste até Tianzifang, na Taikang Road, perto da estação Dapuqiao da Linha 9: vielas estreitas de shikumen transformadas em ateliês, cafés e lojas pequenas. Aí, sim, paga-se a conta e apanha-se o metro.
Plátanos, shikumen, art déco e os melhores pontos fotográficos
Os plátanos são a assinatura do bairro. Foram plantados em massa nos anos 1920 e 1930, e a sua copa forma um túnel contínuo sobre a Wukang Road e a Fuxing West Road, sobretudo na primavera e no verão. No outono as folhas caem e cobrem a calçada, e é a época em que as ruas ficam mais fotografadas. Em qualquer mês, a melhor luz é a das primeiras horas da manhã e a da hora antes do pôr do sol.
A arquitetura conta três histórias ao mesmo tempo. As vivendas de estilo colonial mostram telhados, varandas e jardins pequenos. Os shikumen, casas tradicionais de Xangai com portão de pedra, aparecem sobretudo junto aos Sinan Mansions e em Tianzifang. O art déco deixou fachadas de linhas limpas e esquinas arredondadas, e o edifício Normandie é o melhor exemplo do conjunto. Os três estilos convivem na mesma rua, e é por isso que o bairro se vê a pé e não de autocarro.
Para fotografar, três pontos valem o desvio: o edifício Normandie ao amanhecer, a partir da esquina oposta, quando a luz lateral desenha a proa; o túnel de plátanos da Wukang Road, cerca de duzentos metros a sul; e os portões de tijolo da Wuyuan Road, com sombra em diagonal entre as dez e as onze da manhã. Ao fim do dia, a Hengshan Road com as luzes acesas é o melhor conjunto para uma última imagem.
Dias úteis, fins de semana e as segundas-feiras fechadas
A diferença entre um dia útil e um fim de semana é grande e muda por completo o percurso. De terça a sexta, as ruas estão calmas até às onze e o passeio faz-se com tempo para olhar. Ao sábado e ao domingo, a Anfu Road e a zona dos Sinan Mansions enchem-se de brunch, as filas dos cafés chegam a meia hora e há mais bicicletas e trotinetes partilhadas nas esquinas.
A régua prática é esta: se o seu objetivo principal é a arquitetura e a fotografia, vá num dia útil de manhã. Se quer o bairro no seu ambiente social, com os cafés cheios e o mercado vivo, escolha um fim de semana e comece cedo, pelas nove. Em ambos os casos, evite a semana dos feriados nacionais, quando a zona recebe um volume de visitantes que torna impossível caminhar com calma.
Cafés, petiscos e intervalos de preços
Os preços na zona variam muito entre a rua onde está e a rua paralela. Nos cafés de especialidade da Wukang Road e da Wuyuan Road, um café com leite custa entre trinta e cinquenta yuans, valor comparável ao de uma cidade europeia. Duas ruas acima, numa casa de bairro, o mesmo café custa metade, e a comida local ainda menos: noodles, dumplings e pão ao vapor entre quinze e trinta e cinco yuans. No mercado da Wulumuqi Road come-se por dez a trinta yuans.
| O que | Intervalo aproximado | Nota |
|---|---|---|
| Café filtro ou expresso numa casa de especialidade | 25 a 45 yuans | As casas da Wukang Road e da Wuyuan Road estão entre as mais caras da zona. |
| Café com leite numa casa de bairro | 30 a 50 yuans | Em Xangai, o café de especialidade paga-se a preço europeu. |
| Noodles ou dumplings numa casa de comida local | 15 a 35 yuans | Ao almoço; em casas sem carta em inglês, aponte no balcão. |
| Pão ao vapor, baozi ou pastelaria chinesa | 5 a 15 yuans | Barato e rápido, sobretudo de manhã. |
| Petisco no mercado da Wulumuqi Road | 10 a 30 yuans | Fruta cortada, tofu frito e espetadas, por peso ou por unidade. |
| Refeição nos Sinan Mansions ou em Xintiandi | 80 a 200 yuans por pessoa | A zona mais turística do percurso; duas ruas acima, a mesma comida custa menos. |
Vale a pena ler isto como uma escala e não como um preço fechado, porque as casas abrem e fecham depressa nesta zona e os valores sobem em época alta. A regra que funciona é simples: quanto mais perto do edifício Normandie e dos Sinan Mansions, mais caro; quanto mais para dentro das ruas residenciais, mais barato e mais autêntico.
Erros que se pagam caros
- Chegar ao meio-dia de sábado e concluir que o bairro é só multidão; a mesma rua às nove da manhã é outra cidade.
- Contar com a casa-museu de Ba Jin numa segunda-feira, quando está fechada.
- Fazer o percurso todo sem parar; a zona é feita de pausas e de mesas de café.
- Ficar apenas na Anfu Road e nos Sinan Mansions e perder o mercado e a Wuyuan Road.
- Percorrer as ruas de bicicleta à pressa, quando aqui o passeio é a pé e devagar.
- Esquecer as notas pequenas e descobrir no mercado que a banca só aceita numerário.
Se preferir andar sem mapa e sem contar quarteirões, o passeio também se faz acompanhado. A JoyoTour organiza roteiros a pé pela antiga Concessão Francesa com guia licenciado de língua portuguesa, que explica a arquitetura e a história de cada troço e ajusta o ritmo, as paragens e os cafés ao grupo.
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